segunda-feira, 8 de junho de 2009

Uns e os outros

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Nas voltas pela rede, verifiquei que alguns blogues trazem, hoje, para a ribalta as palavras de certos deputados que nos ouviram e se fizeram ouvir contra a "campanha negra" lançada sobre a escola e a educação, por quem (ainda) nos governa .
Associo-me ao coro blogosférico, porque vale a pena ler e porque a derrota também se deve a eles.
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Uma, e outra, e outra vez – as vozes de quem faz a escola pública


Vieram de novo, aos milhares, de todos os pontos do país. Voltaram a encher as ruas de Lisboa com a sua luta, e a sua perseverança na defesa de um modelo democrático da escola pública. Dizendo "categoria só há uma - professor e mais nenhuma". Nem mais.

Ao longo destes últimos quatro anos, os professores têm sido a voz mais forte e mais ousada na contestação ao Governo. E são-no porque têm sido eles a experimentar, mais do que em qualquer outro sector, o que significa a "empresarialização" dos serviços públicos.

Alguém pensou: "temos que alcançar os níveis europeus em matéria de resultados escolares, mas sem fazer o esforço de investimento que fizeram os outros países europeus". A solução do Governo PS: indicar um culpado, os professores; pressionar os resultados; e juntar a propaganda.

Quatro anos do triunvirato Mª Lurdes Rodrigues - Valter Lemos - Jorge Pedreira, resumem-se a isso. Resume-se a duas ideias centrais: primeiro, uma escola organizada como uma cadeia de comando capaz de produzir, rapidamente, resultados "politicamente" simpáticos para quem governa; e segundo, uma classe docente domesticada pelo medo e pela concorrência interpares, que cumpra ordens sem pinga de crítica, e saia baratinha na factura salarial do Ministério da Educação (ME). Toda a arquitectura legislativa, toda a orientação política do ME seguiu neste sentido. Modelo de avaliação, modelo de gestão, estatuto do aluno, e o Magalhães para ajudar à festa...

Quando se provou que os professores não se iriam deixar humilhar e enxovalhar pelo Governo, e que estavam dispostos a lutar, veio a chantagem e as ameaças do ME - ameaça de processos disciplinares, de não progressão na carreira, o afastamento e a intimidação de Conselhos Executivos que não vergavam.

Mesmo assim, uma, e outra, e outra vez, os professores saíram à rua. Porque sabem o que está em causa. Sabem que hoje a escola pública enfrenta uma crise, mas que não pode perder a confiança da opinião pública. Sabem que a multiplicação burocrática não trouxe rigor nem exigência às práticas escolares, apenas aumentou o espaço de manobras dos burocratas políticos de serviço. Sabem que se criaram e inventaram novos problemas, sem nunca resolver os velhos e determinantes problemas do sistema educativo português - o abandono e o insucesso escolar. Sabem que hoje as escolas enfrentam todos os desafios - a herança da iliteracia e a globalização mediática - ; sabem que à escola se pede todas as funções, da educação clássica, às novas competências, e ao apoio social às famílias e aos excluídos; e sabem que lhes faltam todos os instrumentos para fazer esse combate, e essa tarefa.

Quem saiu à rua sabe exactamente o que quer - pacificar as escolas, esquecer Maria de Lurdes Rodrigues, investir no sistema educativo e nos profissionais que fazem a escola pública. Em Setembro ou Outubro, os professores sairão de novo à rua. De outra maneira voltarão a dizer ao PS que não aceitam ser humilhados e perseguidos. Tenho a sensação que dessa vez o PS vai ouvir com muito mais atenção.

Ana Drago, deputada do BE, in Esquerda.Net, 02 de Junho de 2009


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A cabeça perdida da Educação

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Durante o dia 2 de Junho tivemos a magna oportunidade de testemunhar na primeira pessoa a fúria de um Ministério da Educação que, quer através da Ministra, quer dos seus Secretários de Estado, se vem demonstrando fiel aprendiz da doutrina da retórica de propaganda e mentira que este Governo por aí propala com o Primeiro-Ministro ao leme.

O Ministério da Educação está de cabeça perdida, de facto. A ira, o ataque desmedido, o sentimento anti-Escola, anti-professores e "anti-tudo-o-que-não-seja-do-meu-querido-PS", toldou a capacidade de raciocínio à própria Ministra que escolhe agora o insulto como arma política, à falta de argumento e de bom-senso. O estilo trauliteiro, quase arruaceiro, que presidiu a esta última audição do Ministério da Educação na Comissão de Educação e Ciência demonstrou bem a natureza anti-democrática de uma Ministra que impôs uma política de subversão, à margem da Lei de Bases do Sistema Educativo e da Constituição da República Portuguesa.

A Ministra adoptou uma postura de uma arrogância tal que só vem reforçar, ainda que já de forma ridícula, a sua obstinação contra os professores, o seu ódio visceral pela escola pública e a sua concepção de Estado enquanto propriedade do Governo. Concebe, pois a Escola, não como uma construção dos portugueses, dos professores, auxiliares de acção educativa e de outros homens e mulheres que entregaram um generoso contributo para a edificação de uma Escola Pública que, em pouco mais de trinta anos, cresceu permitindo a massificação do Ensino; mas como uma propriedade sujeita aos caprichos e ditames, à ditadura tecnocrata dos gabinetes da ministra em funções.

Exactamente porque a razão não sustenta a sua acção, a Ministra ostenta a sua irracional paixão que se traduz numa total perda da lucidez política para lidar com o Sistema Educativo. Mas mais do que tudo: a Ministra não gosta da Lei. Não gosta da Lei de Bases, não gosta da Constituição e por isso mesmo, actua na marginalidade: à margem da lei, fazendo por ignorar que a lei existe e abusando da sua posição de poder para a contornar sempre que a lei não satisfaz os seus caprichos.

A estratégia está clara. A agudização do comportamento agressivo e autoritário da Ministra reflecte uma cabeça perdida que tenta agora captar os votos de todos quantos não conhecem as escolas, o seu dia-a-dia, tenta ainda seduzir os pais responsabilizando os professores pelas falhas das escolas que sentem, tenta captar a fidelidade de um punhado de eleitores que se revêem na política de direita autoritária e que concebe a escola como uma fábrica, os professores como operários e os estudantes como produtos. Tenta fidelizar os votos desses miseráveis espectros políticos porque sabe que não conta com os votos dos professores, dos democratas e de todos os que defendem uma Escola Pública de qualidade, e sabe que não contaria com esses votos, nem que viesse agora chorar falsos arrependimentos.

Ao menos assim, sabemos todos com o que contar no dia das eleições.

Miguel Tiago, deputado do PCP, in Passos perdidos da Educação, 8 de Jun de 2009


Agradeço as pistas à Pérola da Cultura e à Educação do Meu Umbigo

7 comentários:

Anabela Magalhães disse...

Excelentes textos. Não conhecia o da Ana Drago.

bugsnaEDucação disse...

A bem dizer apetece publicar muitos mais do que apenas estes dois. O blogue dos Passos Perdidos deve ser tido debaixo de olho.
Beijo

Reverendo Bonifácio disse...

Lindo... e triste pela verdade do que dizem.

Reverendo Bonifácio disse...

Já agora... a propósito dos "passos perdidos", já visitaram a assembleia da República? Tem lá a "sala dos passos perdidos", assim baptisada (sei que já não tem "p" mas eu gosto dessa grafia...) por ser onde os requerentes, perdiam o tempo (passos para lá e para cá), à espera que algum elemento do governo (monárquico, republicano ou o que fosse)os atendesse... muitas vezes em vão.
Actualmente podemos ser recebidos na assembleia pelos deputados, mas agora é o país todo que, de alguns anos a esta parte, está na "sala dos passos perdidos" até que algum governo (ou a população) resolva tirá-lo de lá.

Lelé Batita disse...

Obrigada pelos links e pela referência ao Blog "Pérola de Cultura".
Quem é amigo da Anabela Magalhães merece o meu respeito.
Não conhecia os "Lírios de Campo". Vou voltar aqui com a frequência possível.
Um abraço.

Reverendo Bonifácio disse...

Bemvinda Lelé!

bugsnaEDucação disse...

Obrigada Lelé pela visita e pela inspiração.