.No poste «Dia Feliz», aqui abaixo, recebemos um comentário de as-nunes, entretanto apagado não sei por quem, talvez pelo próprio autor.
Por ser paradigmático de uma certa corrente de opinião sobre os professores, julguei que o referido comentário não podia ficar sem resposta. No afã de mais uma vez esclarecer, quem muitas vezes não quer ser esclarecido, saiu-me o texto maior do que prevera.
Resolvi puxar ambos para a ribalta, para que não haja mais mal-entendidos e fique claro que só não vê quem não quer.
as-nunes disse:
O Comandante Mário Nogueira!
Vão vê-lo um dia destes bem empoleirado num galho do Poder, todo contente e satisfeito porque o resultado do seu trabalho está à vista: conseguiu mobilizar por várias vezes os Professores deste nosso Portugal.
Sou do tempo das manif a esmo, por tudo e por nada. E , pela minha experiência, constato que não é à força de manifestações consecutivas, que iremos fazer vingar os nossos argumentos de classe. Ainda que se trate do Ensino Público, na organização dos seus professores...
Se este Governo não cede mais, neste momento, lá terá as suas razões. Parece-me que muitas correcçoes haverá a fazer ao actual Estatuto da Carreira Docente e aos critérios das avalaiações, etc. Que TODOS NÓS iremos julgar nas próximas legislativas.
(Se este comentário for publicado!?
... A fotografia está muito bem enquadrada, com caras muito bonitas e...rendo-me à vossa força!)
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bugsnaEDucação disse:
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as-nunes, obrigada pelo piropo.
Antes de mais, quero que saiba que eu também sou do tempo das “manifestações a esmo”, não bem por tudo e por nada, o que significa que também sou do tempo da outra senhora (para os jovens que eventualmente lerem isto, o tempo antes do 25 de Abril. Deformação profissional, já se vê!).
Entre um e outro tempos, mesmo sabendo que não há democracias perfeitas, prefiro aquele em que agora vivemos.
Nem todos pensam como eu. Há até cada vez mais indícios de que alguns andam a cantar o “Ó tempo volta pra trás.» Sorte a deles que vivemos em democracia, ainda!
Mas, então, se não é usando o direito que nos dá a democracia de nos expressarmos livremente em manifestações, pacíficas e ordeiras, nem com abaixo-assinados, nem com moções, nem com a negociação, nem com os tribunais, nem com opiniões de gente especializada na matéria da educação, nem com iniciativas na Assembleia da República, nem com um ou outro recado tímido do Sr Presidente…, nem…e nem…, não me dirá, então, como podemos fazer-nos ouvir e fazer “vingar os nossos argumentos de classe”?
Muito grata lhe ficaria eu, os professores, os alunos, os pais, a nação. Quiçá até a tutela da educação o oiça.
Quanto a este governo lá ter as suas razões, claro que as tem.
No início desta legislatura bem nos levaram no engodo de que os sacrifícios eram para acudir à saúde financeira do país. E nós acreditámos (tansos!) e até apoiámos. Ficámos congelados nas carreiras, sem aumentos e satisfeitos connosco próprios por estarmos assim a contribuir para o bem comum!
Depois vieram com a do saneamento da educação. Aí ficámos mais atentos e fomos dizendo para os nossos botões: “bem, cansados de reformas de faz-de-conta estamos nós”. “Cada governo cada reforma, sempre sem avaliação!” “Mas lá que as escolas precisam de uma volta, precisam!”
“Venha de lá uma avaliação séria e corajosa que de vez acabe com o joio, residual mas joio”. “Tomem-se medidas para travar a indisciplina”. “Acabe-se com a rebaldaria das passagens com um ror de negativas”. “Dêem-nos as condições tecnológicas para que a escola possa competir com o mundo, e AS OUTRAS CONDIÇÕES, as de espaço digno, as de tempo, as humanas, as especializadas, para que se possa dizer, com verdade, que a escola é democrática e viabiliza o sucesso de todos os que a frequentam.
Mas, como de boas intenções está o Inferno cheio, aquela de só termos aumento no ano de eleições confesso que me cheirou logo mal.
Depois chegaram as Aulas de Substituição: “és de Português? que importa! calças uns ténis e vais dar aula de Educação Física”. O pessoal remexeu-se, adaptou-se e acatou.
O que é facto é que, por entre as correrias de aulas nossas e dos vizinhos, continuámos a cumprir as nossas funções, com tal zelo e dedicação à causa, que quando saiu o Estatuto da Carreira Docente muita gente nem deu pela gravidade da coisa. Mea culpa, mea culpa. Estou quase como a do reclame, vou inventar uma máquina para levar bofetões.
E assim se falharam os primeiros protestos, a primeira manifestação.
Depois as mudanças sucederam-se atrapalhadas e trapalhonas. Foi o Concurso para Titular, perante cujos critérios e resultados muitos acordaram. Foi o modelo de Avaliação de Desempenho Docente – nas versões complex, simplex e barafunda. Foi o Estatuto do Aluno, que inicialmente metia no mesmo saco alunos com doenças graves e os simplesmente baldas, que vem instaurar o branqueamento de faltas dos faltosos, sob pena de os professores inventarem (e corrigirem) provas atrás de provas para quem se dá ao gozo de nem as fazer. Foi o Modelo de Gestão que põe os poderes, até agora colegiais, nas mãos de uma só pessoa.
Cá para mim, devo ter-me esquecido de alguma. Cá para mim, ficaram com algumas medidas ainda na gaveta. A coisa não correu bem porque se tivesse corrido…
Foi aí que a malta reagiu e foi o que se tem visto. Protestos dos professores pelas vias acima enunciadas e discurso autista, demagógico, ofensivo por parte da tutela e do chefe do governo.
Chamaram-nos de tudo. Analfabetos por não sabermos aplicar as leis mal feitas, ou e até mesmo inexequíveis, que suas ex.ªs produziam torrencialmente. Incompetentes, por não passarmos quem se recusa a aprender, manchando assim as estatísticas a mostrar lá nas europas. Mentirosos calões e laxistas por não querermos ser avaliados. Trouxas por nos deixarmos manipular pelos Sindicatos. A última é: mentalmente destituídos por irmos a reboque dos líderes políticos que se cruzaram, estrategicamente, com a manifestação de sábado. Quando as ofensas são julgadas insuficientes, ameaçam..
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Portanto, quanto a este governo lá ter as suas razões, quais serão elas? Porque se encapelam tanto contra os professores, não se interroga?
É que de não cumprirmos os nossos deveres profissionais por causa dos protestos nem a dama que nos tutela se atreve a acusar-nos. Ainda no sábado afirmou que as escolas estão envolvidas no processo do final do ano com toda a normalidade, ou qualquer coisa do género, que já nem posso ouvi-la quanto mais citá-la.
Pode crer que não me restam dúvidas que têm razões, porém inconfessáveis. Tenho dúvidas é que alguns as queiram ver. Já se sabe, o pior cego….
Bom, mas para que estou eu aqui com tanta explicação, o as-nunes deve saber de tudo, bem informado como, presumo que, estará pelos que lhe são próximos.
E por isso mesmo mais me espanta que, reconhecendo até erros a “julgar” nas próximas legislativas, (presumo de novo já que não percebi o seu terceiro parágrafo), venha dizer que as manifestações coisa e tal. Então, temos que comer calar até às eleições? Temos que calar antipatias ou simpatias partidárias? Soube de algum sector da manifestação que tenha feito propaganda partidária? Estavam lá todos os partidos menos o PS, pudera! MINTO, EU VI MEMBROS DESTACADOS DO PS NESTA MANIFESTAÇÃO E NO CORDÃO HUMANO, por sinal os mesmos, assim misturados com o people.
É também por ser sabedor do que se passa que me ofende por vir aqui chamar-me tolinha às ordens de um qualquer comandante. A adoptar o seu método será, então, legítimo afirmar que quem ficou em casa foi mobilizado pelo PS? Quem entregou objectivos ou pediu avaliação complex é PS?
Não funciona, pois não?
Termino afirmando que a alusão à censura de um comentário seu, pessoalmente, não me atinge. Não perfilho os métodos de outros tempos, como fica provado nesta resposta.
Mas que também fique claro que não estou para receber nesta casa, que também é minha, pessoas que me destratem e me chamem nomes.
Deixo-o com duas citações sobre a demagogia na Democracia Ateniense:
«Diferentemente de Esparta, em Atenas não havia escolas públicas, embora a educação fosse obrigatória. Quando a criança chegava aos 7 anos, cabia ao pai enviar o filho a um mestre particular.»
«Surgiu um novo tipo de líder político, o “demagogo”, que mobilizava a massa popular em oposição aos aristocratas. Ao chegarem ao poder, esses líderes governavam de forma ditatorial, adoptando medidas de apelo popular. Foram chamados de tiranos pelos gregos.»
http://pt.wikipedia.org/wiki/Hist%C3%B3ria_da_democracia_em_Atenas
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