terça-feira, 24 de março de 2009

O Zezinho, o Joãozinho, o Luizinho e o filho do Francisco.

O Zezinho, o Joãozinho e o Luizinho foram para a escola.

No primeiro ano o Zezinho aprendia muito bem, e portava-se correctamente, o Joãozinho aprendia sem dificuldades, e era muito irrequieto, o Luizinho tinha algumas dificuldades que conseguiu ultrapassar, apesar do comportamento do Joãozinho tornar o seu esforço mais árduo.
O professor elogiou o Zezinho, os pais ficaram contentes.
O professor disse aos pais do Joãozinho que deviam incentivá-lo a melhorar o comportamento, os pais disseram-lhe que a culpa era do professor porque não sabia motivá-lo, e que o filho estava vivo e por isso não podia estar sossegado numa aula, tinha de falar e mexer-se. O professor disse aos pais do Luizinho que o seu filho precisava de algum acompanhamento em casa para melhorar. Os pais começaram por ficar preocupados.

No segundo ano o Zezinho continuava a aprender facilmente, mas começou a aborrecer-se porque o professor tinha que ensinar num ritmo mais lento para o Luizinho. O Luizinho tinha dificuldade em acompanhar por causa das dificuldades iniciais e das traquinices do Joãozinho.
No final do ano o Zezinho passou sem dificuldades e sem entusiasmo.
O Joãozinho passou, apesar do comportamento ter prejudicado os colegas, porque estava vivo.
O Luizinho passou, apesar de ter muitas lacunas, porque só no final do ciclo é que é permitido reter os alunos e é um berbicacho de todo o tamanho para o professor conseguir tal proeza. Depois ainda seria preciso a sua decisão não ser anulada. Os pais ficaram menos preocupados, e começaram a agradar-lhes as políticas do ministério da educação.

No terceiro ano o Zezinho deixou de fazer os trabalhos de casa (o Joãozinho nunca os fazia), e começou a estar sempre na conversa (como Joãozinho). O Joãozinho tornou-se mais perturbador (não acontecia nada) e tinha notas muito baixas (não era retido no final do ano). O Luizinho deixou de se esforçar porque a matéria, visto as lacunas que trazia, era difícil demais para tentar entender. Juntou-se à perturbação cada vez maior do Joãozinho, pois de todas as maneiras não ficava retido nem acontecia nada.
E os pais deixaram de se preocupar com os filhos, e passaram a aplaudir as políticas do ME. Os filhos passavam, estava tudo bem.

Passaram-se os anos.
O Luizinho está a receber o rendimento mínimo, o Joãozinho faz uns negócios ilegais, umas agressões e dizem que até assassinou a ex-mulher (mas se a polícia conseguir fazer a proeza de o prender mete-se num berbicacho de todo o tamanho, e claro que se ele se apresentar o Juiz deixa-o aguardar julgamento em liberdade), o Zezinho lá conseguiu um emprego como comercial de uma grande empresa de telecomunicações.

E quem governa o país?
O filho do Francisco.
Qual Francisco?
Aquele que mandou o filho para um colégio interno na Suíça, até este ter idade para a licenciatura em Oxford, e depois o mestrado nos USA. O Francisco que dizia que os professores em Portugal eram uns inúteis, e em quem os pais dos outros três acreditaram.

6 comentários:

bugsnaEDucação disse...

Pois de quem poderia ser a culpa? Certamente que não das políticas erráticas que a educação sofreu nas últimas décadas.
Eu, professor, me penitencio...
de nunca ter exposto publicamente os muitos absurdos que temos vivido, de me ter esforçado por remediar os dislates dos MEs e suas pseudo-reformas.

Anabela Magalhães disse...

Na mosca, Reverendo!

Gaivota de asa quebrada disse...

Enfim, este é o país de sonho para todos os pais que não têm tempo para os seus filhinhos. O país da treta e da naúsea, do combalacho e do compadrio, da cunha e do faz-de-conta, dos números,dos gráficos sem referente, dos estudos da OCDE, dos políticos sem moral, da moral sem princípios, dos princípios de falsos filósofos, dos filósofos que não querem saber do país. Mais uma vez...Enfim!
Quem me dera partir numa galera, ao sabor do vento e das marés que, essas sim,podem nem ter princípios nem fins, mas também não têm filosofias , nem gráficos, nem cunhas, nem compadres, nem fazes de conta.

"Ó Portugal, Portugal, do que é que estás à espera? Tens um pé numa galera e outro no fundo do mar!!!
...........
Não se pode estar direito, quando se tem a espinha torta...
................
ò Portugal, Portugal, enquanto estás à espera, ninguém te pode ajudar..."

Reverendo Bonifácio disse...

Gaivota, guarde-me lá um lugarzinho no seu navio...

Gaivota com gesso na asa disse...

Já tem o seu lugar marcado, Reverendo. E, nas noites frias, sentar-nos-emos na gávea a olhar o infinito, e só veremos estrelas e constelações e nebulosas. Deixaremos para trás os esgotos e as sarjetas e seremos, aparentemente,livres!
Bon voyage!

Reverendo Bonifácio disse...

Obrigado pela gentileza gaivota, seremos "aparentemente livre" e realmente mais livres que agora.